Se tem fome, não se esforçou o suficiente, se come mal, não sabe escolher direito seus alimentos.
Todos os dias somos bombardeados por informações sobre os problemas associados a alimentação, ora assume um discurso de problema conjuntural, como da fome em meio a pandemia, ora como um problema do consumidor individual, principalmente no que tange a má alimentação e das doenças crônicas não-transmissíveis. Informações que mais ocultam do que revelam.
As saídas, são igualmente falaciosas, do esforço individual do empreenda à escolha melhor seus alimentos no mercado a partir do montante no seu bolso. O imperativo em colocar o problema do atual arranjo do nosso sistema alimentar no consumidor individual é o mesmo que colocar o problema do sistema energético brasileiro no tempo do banho.
Esse discurso oculta um processo intrínseco do nosso sistema alimentar no neoliberalismo (apesar de não começar agora, ele se apropria, ressignifica e intensifica esse movimento), baseado em uma financeirização de todos os aspectos possíveis da vida, da participação cada vez maior de empresas transnacionais no comando daquilo que é disponível para a alimentação e da propaganda e suas ferramentas para dar sentido a comida-mercadoria.
Aquilo que comemos, no capitalismo, e mais intensamente agora, tende a ser capturado tanto no sentido objetivo, no lucro, quanto no sentido subjetivo, na ideia de comida, de como, quando, o que e com quem comer.
Posto isso, a forma em que se organiza nosso sistema alimentar, em que se privilegia a realização do valor às nossas necessidades tende a mercadorizar tudo aquilo que se pode (vale destacar a venda de ossos e de caixas de papelão já utilizadas aqui no Distrito Federal por exemplo) ao mesmo tempo coloca o peso reponsabilidade da realização das necessidades humanas nos comensais individualmente.
Se tem fome, não se esforçou o suficiente, se come mal, não sabe escolher direito seus alimentos.
Aquilo que não é revelado, é, pois, que os problemas da má-alimentação, seja da fome ou das doenças crônicas não-transmissíveis tem uma relação estrutural com a forma em que se organiza a nossa sociedade e o sistema alimentar associada.
Não são problemas individuais. Esses problemas tem uma dimensão econômica da comida-mercadoria, mas também política, no sentido da desigual correlação de forças em que o Estado no neoliberalismo tende em deixar intacto esse sistema.
Em um momento com a galopante desigualdade social e tudo aquilo que é necessário para viver tem seus preços constantemente elevados, colocar o peso da inadequação da dieta no consumidor é no mínimo nefasto e contribui para a reprodução desse sistema, em que os verdadeiros culpados ficam intactos e com os bolsos cheios.
Onde falta comida boa, sobra lucro.
* Olívio José da Silva Filho é gastrônomo, doutorando em Política Social pela Universidade de Brasília, militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato - DF.
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Edição: Márcia Silva